quinta-feira, maio 11, 2006

O sobrevivente


O sobrevivente
Originally uploaded by Stuart Murdoch.

Faço parte de uma geração que cresceu nos anos 80. Que passou, como que de raspão, ao lado das convulsões sociais. Muitas vezes, inconsciente dos traços de ruralidade, de interioridade e de desnorte que marcaram a década de 70. Uma geração para quem " a liberdade é hoje nome de avenida ".

A verdade é que a estabilidade de uma democracia consolidada deixou para trás o PREC, o MES, o MFA, e tantas outras siglas, que pouco nos dizem nos tempos que correm. Daí que os primeiros registos de Sérgio Godinho se revistam de uma natureza inegavelmente documental; testemunhos vários de um Portugal a preto e branco, de um país em constante sobressalto, de uma ansiedade incontida. Menos ou mais panfletários (cfr. " De pequenino se torce o destino "), projectam nos seus temas um ideário demarcado e assumido pelo próprio Sérgio Godinho, que porém é ultrapassado pelo realismo que as suas letras encerram. Estas são feitas de palavras de ordem, de caricaturas ao poder e de uma sincera esperança. E esta não pode ser ideologicamente apropriada. E o que quer isto dizer ? Que quem não se identifica ideologicamente com o ideário de esquerda, não passa mesmo assim ao lado destas letras. O imaginário godinhesco, a poesia que dele emerge, não pode ser remetida ao mero compromisso político; o seu compromisso é com a realidade da altura.

As letras de Godinho, encontramo-las na rua, nas conversas de café e nos ditados populares; nos murais da altura e nas ocupações rurais; percorrem as lutas sindicais, atravessam a fronteira rumo a França e olham Portugal do exílio.

Foi no exílio que, em 1971, Sérgio Godinho e José Mário Branco gravaram dois dos mais importantes álbuns da música portuguesa. Apresentados no mesmo dia, " Os sobreviventes " e " Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades " são parentes por afinidade, por vezes confundindo-se ao partilharem vozes, instrumentos, e até mesmo um tema (" O charlatão ") no alinhamento. Ainda assim a dicotomia entre um e outro reflecte-se desde logo em ambas as capas, uma branca e a outra negra, o primeiro mordaz e o segundo mais sóbrio. Descobri o primeiro deles após uma paragem em " Campolide " e uma ida ao " Rivolitz ".

« Vim ao mundo por acaso, em Portugal não tenho pátria / sou sozinho e sou da cama dos meus pais ».

Deste álbum guardo na memória versos como o acima transcrito ( 'Descança a cabeça estalajadeira' ). A metafórica cadência lenta e penosa de " Que força é essa ", resgatada por José Mário no último O irmão do meio. O lamento mordaz de " quem vive com a fome enterrada na garganta " e, sentado, espera a revolução ( 'Que bom que é' ). Os primeiros acordes d' " O charlatão ", por momentos irreconhecível, em pleno Coliseu, há dois anos atrás.

Enfim ... um álbum que se escuta à noite. Que se discute ao jantar. Que se revisita antes e depois de Abril.

« Entre a rua e o país vai um passo de um anão / Vai o rei que ninguém quis / Vai um tiro de um canhão / e quem enriquece é o charlatão ... »

Pedro Sousa

( Um obrigado ao Paulo pela referência )

2 Comments:

At segunda mai 15, 09:59:00 da manhã 2006, Anonymous Inês S. said...

Uma vénia enorme e sentida para Sérgio Godinho...

 
At quinta jul 03, 12:41:00 da manhã 2008, Anonymous Cândida said...

mi2
vénia com salamaqueques e tudo.

 

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