quinta-feira, dezembro 22, 2005

Tropicalia : ou Panis et circenses

« Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar / as folhas sabem procurar pelo sol / e as raízes procurar, procurar / mas as pessoas na sala de jantar / são ocupadas em nascer e morrer ... »

« Tropicalismo é o avesso da bossanova ». Caetano definia assim o movimento tropicalista em 1968. Não como particularmente reaccionário à bossanova (Caetano, Gilberto e outros tropicalistas seguiam Jobim e João Gilberto), mas sim como a necessária existência de uma terceira via, que paralela à MPB e à bossanova, pudesse materializar um movimento estético, cultural e musical, fundado nas mudanças que se registavam no exterior. E estas transformações aconteciam por todo o mundo ocidental, desde o movimento hippie, passando pela arte pop, até cada album dos Beatles, que acabava por acrescentar novos dados à equação musical. Caetano, como tantos outros, ouviu certamente durante horas " Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band " e procurou aplicar aquela formula à realidade brasileira ; esta imersa num silêncio castrador que prometia se prolongar.

Em 1968 a ditadura militar completava 4 anos, e se havia coisa que os tropicalistas detestavam era o conformismo social e o populismo musical. As barreiras culturais eram muitas, fazendo-se sentir sob as mais variadas formas : num concurso de canções realizado no Rio de Janeiro em 1967, Caetano e Gilberto foram alvo de apupos e vaias, pelo simples facto de se terem feito acompanhar por guitarras eléctricas.

Quando, em 1968, um conjunto de baianos (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e Rogério Duprat), acompanhados pelo letrista Torquato Neto, entraram em estúdio para gravar " Tropicalia : ou Panis et circences ", pretendiam, acima de tudo, escrever um manifesto, testemunho de vários acontecimentos que no ano prévio, e naquele ano de '68, tinham ocorrido e sugerido que algo vinha mudando : a exposição de Hélio Oiticica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (em que os visitantes eram conduzidos por um enorme labirinto, no final do qual, encontravam uma televisão) , as várias colaborações musicais que vinham a ser feitas entre os diversos músicos daquele movimento, e consequentemente, as manifestações de desprezo, e até de alguma violência, de que tinham sido alvo pela acomodada classe média em alguns meios estudantis (muitas vezes, a linha mais dura e conservadora estudantil virava as costas a Caetano ou atirava-lhe com bananas, e tudo o mais que se possa imaginar). Ainda assim, os seguidores desta corrente eram cada vez mais, e os simpatizantes também, sendo que para isso muito contribuiram os artigos favoráveis de nomes como Jobim ou as cada vez mais regulares aparições de Gal, Caetano ou Gilberto na tv, em programas de grande audiência como o de Chacrinha.

« Quando Tropicalia foi lançado os meus tios me disseram que ele não continha música : só ritmo ». A reacção dos tios de Tom Zé foi, provavelmente, a mesma de tantos outros que olhavam com estranheza o resultado das gravações. " Tropicalia : ou Panis et circenses " era diferente de tudo o que se tinha feito até ali, no Brasil. A capa (muito Sgt. Pepper's!) mostrava-nos os participantes no projecto : á frente Gilberto Gil, de túnica, simbolizava o Brasil negro (segurando um retrato de Capinam no dia de formatura) ; Caetano Veloso, de cabelo desalinhado, segurava um retrato de Nara Leão ; á esquerda, Rogério Duprat bebia chá por um penico, enquanto que mais atrás uns ainda muito jovens Mutantes ostentavam orgulhosos as suas guitarras eléctricas ; á direita encontrava-se Tom Zé, de mala de cartão na mão, a simbolizar o êxodo rural ; ao centro, Gal Costa (em formato caipira) e Torquato Neto representavam um casal da classe média ... e acima de tudo, todos eles representavam o Brasil.

Quando a agulha passava pelo vinyl, o espanto era maior. Muitas das faixas encontravam-se coladas (como Lennon tanto gostava de fazer), pontuadas por tiros de canhões, sirenes e uma escrita profundamente imagética e desconstrutiva (por vezes baseada no concretismo brasileiro). Os amores de Lindoneia confundiam-se com famílias que jantavam calmamente, enquanto as ruas sangravam, a polícia vigiava cada esquina e punhais eram desferidos em plena Avenida Central. O progressivo Parque industrial albergava o riso engarrafado. Num céu de anil, aeromoças convidavam-nos a ouvir " aquela canção do Roberto " (referência em " Baby " à Jovem guarda de Roberto Carlos). " Tropicalia : ou Panis et circenses " articulava o arcaico com o moderno, denunciava uma ditadura de costumes impostos e outros oprimidos, celebrava a rebeldia e a palavra " liberdade ".

Porém, o que prometia ser uma longa chegada, acabou por ser uma rápida partida : em 1969 a ditadura brasileira aprovou o Acto AI-5, uma lei que permitia que a polícia invadisse as casas de todos aqueles que, segundo os seus critérios, colocavam em causa a ordem pública, podendo levá-los a interrogatório e mesmo aplicar-lhes uma pena indeterminada. Dez dias após ter entrado em vigor, a AI-5 permitiu que Caetano Veloso e Gilberto Gil fossem detidos, e assim silenciou também o movimento tropicalista ...

« Mandei fazer, de puro aço, um poderoso punhal / para matar o meu amor, e matei / ás 5 horas na Avenida Central ... »

9 Comments:

At sexta dez 23, 12:27:00 da tarde 2005, Anonymous Paulo Sebastião said...

Muito bem. Aprendi com o texto. Obrigado. Falta apenas mencionar alguma discografia: Tropicália, caixa de 5 CD's, Tropicália, editada este ano pela Soul Jazz. Tropicália, single de Beck.Arto Lindsay, também é influenciado pelos tropicalistas, e Caetano Veloso, tem um álbum fabulsos de 1988. Finalmente, aprendi na Wire: qual a grande diferença entre Tropicalismo e Bossanova? O 1º, é tocado em tons maiores, a 2ª, em menores.
Parabéns pelo bom trabalho. Viva a Alta Fidelidade.
Um abraço do vosso amigo, Paulo Sebastião.

 
At sexta dez 23, 09:34:00 da tarde 2005, Blogger Alta Fidelidade - Radio Universidade de Coimbra said...

Alguma discografia :

Tecnicolor by Os Mutantes
Gal Costa by Gal Costa
Domingo by caetano Veloso

e um obrigado!

 
At segunda dez 26, 01:08:00 da tarde 2005, Anonymous Paulo Sebastião said...

Só mais uma coisinha, que me esqueci no outro dia: o Milton Nascimento, foi directamente influenciado pelos Tropicalistas. A Wire, publicou há uns anos, um "primer", sobre o Tropucalismo. Penso que dessa altura,há um grupo chamado "Os Brazões", reeditado este anos. Consultem o sítio www.othermusic.com.
E sou eu, como amigo e ouvinte, quem vos agradece. Paulo Sebastião.

 
At terça jan 03, 04:42:00 da tarde 2006, Anonymous João Terêncio said...

É muito bom descobrir ao ouvir a rádio que o programa dá prazer em ouvir. Por vezes não me apercebo disso em estúdio ou pelo menos tenho a perspectiva toldada por isso mesmo.
Mais 3 discos para descobrir quanto antes. Gostei bem dos "aperitivos".
E parabéns JP Sousa por tão bem documentada fundamentação.

Abraço
João Terêncio

 
At domingo jan 15, 02:31:00 da manhã 2006, Anonymous Josef B. said...

Bem. O melhor é investigar mesmo. Por exemplo, aqui :

http://www2.uol.com.br/tropicalia/

http://www.slipcue.com/music/brazil/brazillist.html

http://www.rabisco.com.br/44/tropicalia.htm

Quem puder, leia o livro do Caetano Veloso, Verdade Tropical, dedicado exclusivamente ao episódio Tropicália...

 
At terça jan 24, 12:12:00 da tarde 2006, Anonymous Paulo Sebastião said...

... e já agora, quem for a Londres, poderá visitar no London Barbican Centre, uma exposição sobre a "Tropicália".

Continuem o bom trabalho. Um abraço forte. Sebastião.

 
At sábado nov 18, 02:17:00 da tarde 2006, Anonymous Ana Paula Merg said...

gente na música Panis Et Circenses

tem um verso que cita
Mandei fazer

De puro aço luminoso punhal

Para matar o meu amor e matei

Às 5 horas na Avenida Central

vocês sabem o que aconteu nessa Avenida Central na ditadura?

 
At sexta ago 03, 06:22:00 da manhã 2007, Blogger LUANA said...

se houve um acontecimento na Avenida Central...
eu quero saber a mesma coisa...

 
At sexta ago 03, 07:53:00 da manhã 2007, Blogger LUANA said...

acho que descobriii...

em 68 houve a Passeata dos 100 mil, na avenida central do RJ..
eram estudantes, artistas, padres e não mais quem em protesto à ditadura...

pesquise pela passeata dos 100 mil que tu encontrarás bem mais coisa...

õ/////

 

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